
Mesmo sem o hexa, nosso futebol ainda é um dos melhores do mundo, dentro e fora dos campos, no talento de nossos jogadores, na força de nossa torcida, no encanto que este esporte desperta em nossas crianças. Mas, infelizmente, permanece prisioneiro de uma crise financeira sem fim. A Timemania, aprovada pelo Congresso e sancionada no último dia 14, é a grande oportunidade para um recomeço. É a chance de saneamento financeiro dos clubes de futebol.
A dívida fiscal acumulada pelos principais clubes nos últimos 20 anos é próxima de R$ 1 bilhão, o que torna praticamente impossível o pagamento em curto e médio prazos. Nosso profissionalismo é ainda incipiente, se comparado ao dos europeus e até mesmo ao de países como México e Turquia. Os clubes turcos podem comprar talentos brasileiros porque têm acesso às milionárias cotas das copas européias, como a Liga dos Campeões e a Copa da UEFA.
Os clubes brasileiros, além de mal administrados, são vítimas de uma série de fatores. Alguns poucos conseguem manter-se de forma vigorosa graças à venda de talentos e à boa administração de recursos, além de parcerias bem sucedidas com empresas privadas. Mas são exceções que apenas confirmam a regra da penúria generalizada, que tornou terrivelmente obsoletos até nossos mais tradicionais estádios, como o Maracanã e o Pacaembu.
A Timemania será uma loteria semelhante à Mega-Sena, com uso alternado dos 80 escudos dos nossos times em vez dos números. Em cada aposta, serão usados 10 escudos. Calcula-se que poderão ser arrecadados R$ 500 milhões por ano. Deste total, 22% serão usados para pagamento das dívidas dos clubes com INSS, Receita Federal, FGTS etc.
Para os apostadores, os prêmios serão de 46% do total apurado. Também receberão parte do dinheiro hospitais sem fins lucrativos e Santas Casas de Misericórdia de todo o país. A previsão é que a nova loteria estará funcionando a partir de janeiro próximo, permitindo aos clubes devedores obter a tão sonhada certidão negativa de débitos. Hoje, alguns clubes não podem nem mesmo vender jogadores para o exterior, porque a receita em dólares ou euros fica retida pelo Banco Central, em razão das dívidas fiscais.
Os clubes lutaram para que o prazo de liquidação total das dívidas atrasadas fosse de 180 meses, em vez dos 60 previstos pela medida provisória original do governo. Uma ampla negociação atendeu à reivindicação dos clubes, que alegaram ser muito curto o espaço de tempo para quitar tamanha dívida. Os clubes nem verão a cor do dinheiro das apostas, porque os recursos reverterão de imediato aos cofres públicos.
Mas é preciso que fique bem claro o risco que todos estão correndo, em caso de má gestão: o clube devedor terá de manter em dia o pagamento das dívidas que vencem, além de assumir parte do pagamento parcelado das dívidas antigas. Qualquer atraso representará a perda do direito à Timemania.
O futebol brasileiro estava mesmo precisando de uma medida criativa para se reerguer. Acredito que a Timemania pode impulsionar este esporte nacional, colaborando assim para sanear não somente as contas internas dos clubes, mas também trazer alívio ao erário público e ao equilíbrio fiscal. O torcedor tem feito sua parte, comparecendo aos campos e acreditando que o futebol brasileiro tem, sim, futuro e não apenas um passado brilhante.