
Mais de 350 mil acidentes com vítimas, 35 mil mortos e 450 mil feridos. Isso, a cada ano. Os números do trânsito no Brasil, contabilizados pelos Ministérios dos Transportes e da Saúde e pelo Departamento Nacional de Trânsito, lembram números de guerra. Uma guerra que mata especialmente os nossos jovens. É a Unesco que denuncia: de cada cinco jovens mortos no nosso país, um é por acidente de trânsito. Somente em 2003, 7.492 moças e rapazes perderam a vida em acidentes de carro, vítimas, em sua maior parte, da imprudência e da mistura explosiva álcool/direção. Na última década, a violência nas ruas e estradas deixou mais de 3 milhões e 300 mil sobreviventes, muitos com seqüelas graves, para o resto da vida.
Um cenário que nos enche de medo e vergonha. Medo porque nos sentimos, todos, expostos a esse tipo de violência, que cresce de forma alarmante, ano a ano. Vergonha, porque, apesar de um Código de Transito festejado como um dos mais avançados do mundo, não conseguimos ainda prevenir, fiscalizar ou punir a maior parte das infrações nas vias públicas brasileiras.
O acidente que matou cinco jovens na madrugada do último dia 3, no Rio de Janeiro, acendeu ” mais uma vez ” a discussão sobre a violência do trânsito. Mais que isso, mostrou a urgência de se tirar do papel a exigência de uma educação maior nesta área. Porque o Código de Trânsito Brasileiro, que fiz questão de ajudar a implantar quando estive à frente do Ministério da Justiça, oito anos atrás, exige, com todas as letras, não apenas que os Detrans organizem Escolas Públicas de Trânsito, mas que a segurança de trânsito faça parte do currículo escolar, da educação infantil ao ensino superior. No entanto, apesar de iniciativas isoladas e bem-vindas, o assunto tem passado bem longe das salas de aula.
O motorista de 18 anos que dirigia o carro na Lagoa Rodrigo de Freitas, no último dia 3, estava embriagado, assim como três dos outros quatro jovens que morreram no acidente, depois de passarem a noite numa boate. Mais: o carro estava em alta velocidade e ninguém usava cinto de segurança. O álcool, qualquer um sabe, causa sonolência, diminui os reflexos, turva a visão e distorce a avaliação de risco. Responde por 60% dos acidentes de trânsito, segundo o movimento Beba Cidadania, que reúne mais de 300 entidades. Mas os jovens, também sabemos, gostam de desafios e costumam ter a falsa sensação de serem inatingíveis pelo perigo.
São motivos de sobra para apostarmos mais na educação para o trânsito. E essa não pode ser apenas uma tarefa dos governos ou dos órgãos ligados ao Sistema de Trânsito. Tem de ser assumida por pais, avós, irmãos, filhos, pelos educadores, pela mídia, agentes públicos e usuários das vias públicas. Tem de ser assumida por todos, como único meio de formar cidadãos responsáveis e assegurar o respeito à vida humana.
O acidente na Lagoa também estimula o debate sobre o endurecimento de nossa legislação e a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa de sua aplicação. Especialistas apontam a necessidade de melhor formação dos futuros condutores, com o aumento do número de horas-aula, mais qualidade dos instrutores e exames mais severos. E criticam a flexibilidade da lei no caso de ingestão de bebidas alcoólicas. O limite tolerado de álcool no organismo, segundo o Código de Trânsito, equivale a duas latas e meia de cerveja, mas precisaria cair a zero, argumentam alguns. As penas para embriaguez ao volante teriam de ser mais pesadas, lembram outros. Embora a infração seja considerada crime, punido com multa e detenção de seis meses a três anos, o motorista que dirige alcoolizado pode nem vir a ser processado por causa de uma série de benefícios aplicados pelo Código de Trânsito.
A discussão vai longe. Passa pela facilidade com que bares e casas noturnas permitem a presença e até vendem bebidas alcoólicas a menores de idade. Passa pela impunidade de comunidades virtuais que fazem apologia de crimes no trânsito na internet. Pela impunidade absurda desse tipo de crime, pela chamada “indústria das multas” e pela precariedade das campanhas educativas de primeiros socorros em acidentes e de segurança do trânsito.
O debate está lançado. A morte estúpida dos jovens no Rio de Janeiro não pode apenas engrossar as estatísticas da violência de trânsito no Brasil. Deve ser usada como arma positiva, da melhor forma possível, numa guerra onde ninguém tem a menor chance de sair ganhando.
Publicado no Correio Braziliense