Ícone do site Senador Renan Calheiros

Um golpe nas desigualdades regionais

As últimas pesquisas até apontam uma ligeira mudança na distribuição de riquezas pelo país afora. Pela primeira vez, em décadas, áreas tradicionais, como Rio de Janeiro e São Paulo, experimentaram um pequeno decréscimo em suas atividades industriais, enquanto o Centro-Oeste e o Nordeste comemoraram um discreto incremento em seu parque industrial. Um avanço, sem dúvida, mas que não altera um cenário cruel: o Brasil continua amargando profundos desequilíbrios regionais, herança dos nossos tempos de colônia, agravada por séculos de injustiça fiscal e omissão pública.


Pois, nesse cenário, a recriação das Superintendências de Desenvolvimento do Nordeste e da Amazônia, a Sudene e a Sudam, é uma vitória não apenas dos nordestinos e do povo da Amazônia, mas do país inteiro. É impossível costurar uma política sólida de desenvolvimento para o país sem encarar, de frente, a questão das desigualdades regionais. Exemplo dessa disparidade é o fato do Nordeste ¿ que concentra 28% da população brasileira ¿ ter uma participação no PIB nacional de apenas 13,8%. Apesar dos avanços das últimas décadas, a Região continua a se destacar no mapa da pobreza nacional. Criada por JK e comandada pelo economista Celso Furtado, nos anos 50, a Sudene foi fundamental para o desenvolvimento econômico da Região, mas, enfraquecida, acabou extinta em 2001. A Agência de Desenvolvimento do Nordeste, que substituiu a Sudene, nunca teve condições mínimas para alavancar, de fato, o desenvolvimento regional.
O projeto de recriação da Sudene, já aprovado no Senado, vai assegurar uma instância fundamental de deliberações sobre investimentos prioritários para uma das regiões mais sofridas do País. A idéia não é aprovar projetos isolados, como antigamente, com incentivos fiscais oriundos do Centro-Sul do país. A nova Sudene resgata as idéias de Celso Furtado e vai funcionar como uma caixa de ressonância dos interesses do Nordeste. Vai diagnosticar o potencial e as necessidades estratégicas da Região e fazer um trabalho de articulação entre todos os Ministérios, identificando e estimulando projetos e iniciativas voltadas para o desenvolvimento sustentável do Nordeste.
Uma das preocupações centrais é fazer da nova Sudene uma instituição transparente e eficaz, com agilidade nas decisões, poder de articulação e decisão política para atacar os problemas tradicionais do Nordeste, a começar pela questão da pobreza. O objetivo não é, simplesmente, o crescimento da produção regional e a maior participação do Nordeste nos mercados nacional e mundial, mas a geração de oportunidades de inserção econômica, social e cultural de milhões de nordestinos.
A criação do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste, vinculado ao Tesouro Nacional, será fundamental para alavancar recursos para o desenvolvimento sustentável da Região, especialmente para empresas públicas na área de infra-estrutura. E a proibição do contingenciamento de recursos orçamentários, um cuidado essencial.
Não existe igualdade entre desiguais. Por isso mesmo, a importância da recriação da Sudene e da Sudam. Desigualdades regionais não se combatem com decisões emergenciais, nem ações a curto prazo. Visão estratégica e planejamento são a única maneira de se apostar num horizonte mais longo para os investimentos e numa política de desenvolvimento voltada para a construção de um país mais justo e menos desigual.

Compartilhe este artigo