Para quem ainda não sabe, a história do longa-metragem Tropa de Elite, de José Padilha, um dos filmes nacionais mais discutidos da atualidade, joga luz sobre os dramas pessoais e morais de um comandante do BOPE do Rio de Janeiro. Abalado mental e psicologicamente, Nascimento, interpretado por Wagner Moura, procura uma saída honrosa para seus dilemas e os vividos na corporação, corroída pelos males da violência.
Assim como na ficção, os problemas dos agentes das forças de segurança não se limitam à violência. Mas se desdobram com conseqüências funestas sobre sua saúde mental e emocional, afetando diretamente a qualidade dos serviços prestados à comunidade.
Em vez de falar de táticas de treinamento, especialistas defendem que as tragédias poderiam ser evitadas por uma disciplina pouco conhecida nas corporações: a psicologia preventiva. Não adianta tratar o policial depois. O acompanhamento psicológico dos policiais é a melhor maneira de proteger vidas e também evitar destruição de carreiras e de famílias.
Uma pesquisa coordenada pela socióloga Maria Cecília de Souza Minayo, em 2006, e que ouviu cerca de 150 policiais, tirou conclusões preocupantes. No aspecto psicológico, quase 40% dos policiais militares afirmam ter problemas durante o sono, contra 53,5% dos policiais civis. Quase metade de ambas as categorias alegam problemas como nervosismo ou tensão, reflexo do cotidiano estafante nas ruas do Rio. Além disso, 13% dos policiais militares admitiram fazer uso de algum tipo de tranqüilizante para relaxar, contra 10% dos civis.
Os problemas psicológicos já são a segunda maior causa de afastamento na Polícia Militar. Em 2007, foram 1.161 casos, no Rio de Janeiro, número somente superado pelas lesões traumáticas, segundo estatísticas do Departamento Geral de Saúde da PM. Apesar deste quadro dramático, nem todos os estados têm algum tipo de apoio ou serviço especializado para tratar esses males. E os que existem são precários.
Por isso, apresentei projeto para que policiais civis, militares e do Corpo de Bombeiros de todo o país e seus parentes tenham direito a tratamento psicossocial. A proposta nasceu de relatos que tenho recebido desde que ocupei o Ministério da Justiça, no final da década de 90.
Com o repasse das verbas, cada órgão poderá contratar clínicas, médicos e estabelecer programas de apoio aos policiais que enfrentam uma guerra diária, travada no combate à criminalidade. Os especialistas propõem a ampliação do trabalho psicológico, com o uso de técnicas de Dinâmica de Grupo, Psicodrama e Sociodrama, e de cursos para controle do estresse, além do estudo e da melhoria das condições de trabalho.
Mais do que apenas o aumento de recursos financeiros ou a compra de equipamentos, o profissional de segurança pública precisa de apoio psicológico e de melhores condições de vida. Muitas vezes estas pessoas são obrigadas a morar na periferia, onde os aluguéis são mais baratos, convivendo com a criminalidade ou escondendo sua profissão dos bandidos para sobreviver.
Por isto, resolvi atacar em outra frente, propondo a criação de um programa de moradias para os agentes de segurança. O Governo gostou da idéia e a aproveitou no Programa de Segurança Pública anunciado recentemente. Agora, com este projeto que estamos apresentando, vamos dar apoio também psicológico aos policiais, para atenuar os efeitos de uma rotina perturbadora.
Resolver o problema da segurança pública não depende só de dinheiro, mas também de conscientização e mudança de mentalidade.