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OS SEIS MESES DA CRISE

Renan Calheiros*

Neste mês de março, a crise planetária que começou na esfera das finanças e se estendeu pelo resto da economia completou seis meses.

Felizmente, o Brasil parece, até agora, saber lidar com a crise. Os juros vêm diminuindo de patamar, embora a queda pudesse ter começado antes. O Programa de Aceleração do Crescimento, por exemplo, é capaz de fortalecer o País e colocá-lo em condições mais favoráveis para enfrentar a conjuntura adversa que se apresenta. Sabendo disso, foi anunciado um incremento de R$ 142,1 bilhões no programa. Com os novos recursos, as verbas previstas para o PAC devem chegar a R$ 646 bilhões. Após 2010, estão previstos outros R$ 502,2 bilhões, elevando para R$ 1, 148 trilhão o total de verbas para o Programa de Aceleração do Crescimento.

Houve, em nosso País, uma elevação do crédito de 22% (2002) para 41% do PIB (2008). Crescimento alavancado também pela reestruturação do mercado de capitais, que passou a fornecer crédito barato para as empresas. Outro fator responsável pelo enfrentamento da crise foi que o crédito se tornou acessível para as populações de média e baixa renda. Pessoas que nunca tiveram acesso a uma conta bancária puderam tê-la.

E, mesmo com a crise que atinge todos os países do mundo, houve no Brasil a manutenção das reservas internacionais próxima a US$ 200 bilhões. Nosso País conquistou a confiança internacional e é um dos mais sólidos entre os emergentes. A prova de confiança é que somos ainda um dos mais atraentes para investimentos internacionais.

Seja qual for a avaliação, o importante neste momento é centrar esforços em medidas anticíclicas para evitar que o País entre em recessão e mantenha uma taxa de crescimento positiva. Este trabalho não é somente do Governo, mas de toda a sociedade, do Parlamento e de nossas instituições. O Senado, aliás, já está dando sua contribuição, analisando criteriosamente matérias que ajudem a aliviar a crise. Foi criada, inclusive, uma Comissão para tratar exclusivamente do assunto, presidida pelo experiente senador Francisco Dornelles.

Uma das consequências mais importantes da crise é uma mudança radical nos paradigmas da economia mundial. Um debate interessante é o que questiona a utilização do Produto Interno Bruto como critério único e principal para medir o desenvolvimento de um país. Há pouco mais de três anos, um grupo de estudiosos realizou uma conferência em São Paulo, da qual participaram líderes mundiais, sobre a necessidade de se criar indicadores capazes de medir a sustentabilidade dos processos econômicos e o desenvolvimento no longo prazo.

Até mesmo a ONU já vem tentando superar as limitações do PIB, com a criação, nos anos 1990, do Índice de Desenvolvimento Humano, que acrescenta outros indicadores, como o nível de educação e longevidade da população. Este novo conceito merece reflexão e debate porque representa uma etapa importante no movimento que tenta tirar as decisões sobre o destino da sociedade das mãos de alguns “gurus” – aqueles que justificaram o fundamentalismo de mercado até quando o castelo de cartas do liberalismo econômico desabou fragorosamente.

O que estamos assistindo, neste momento, é parte do desmanche das teorias que fizeram a glória de dirigentes como Margareth Thatcher e Ronald Reagan, nos anos 1980, e que tiveram no ex-presidente George W. Bush uma de suas inteligências mais luminosas.

Até os analistas americanos mais pessimistas assumem que essa crise deve se resolver até 2010, quando acreditam que a economia americana pode retomar o crescimento. É fato que o Brasil está, hoje, muito mais preparado para enfrentar turbulências do que já esteve no passado. Os fundamentos de nossa economia estão muito mais sólidos do que os de outros países emergentes e somos menos dependentes da demanda externa.

*Renan Calheiros é Líder do PMDB no Senado

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