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O SERTÃO e o MAR

Todos os anos a cena se repete nos sertões de Alagoas. As árvores se desfolham por completo e, até nas margens do São Francisco, o verde se vai, o tempo seca, a terra racha. Mais que um prenúncio inquietante, é uma sentença terrível. Muitas vezes, a seca chega forte como nunca, frustrando a lavoura de subsistência do sertanejo nordestino, secando açudes e barreiros, acabando com a pastagem nos campos e cerrados.


O ciclo das chuvas do Nordeste varia de estado a estado, de região a região – em Alagoas, por exemplo, começa de quatro a cinco meses depois do Ceará. E os sertanejos alagoanos, até hoje, são obrigados a disputar com o gado a palma forrageira, para não morrerem de fome. A ironia é que este cenário cruel tem lugar no estado em que o São Francisco, o segundo maior rio do Brasil e um dos maiores do mundo, deságua na bela cidade de Penedo.
A saída para a seca alagoana, portanto, tinha de passar pelo Velho Chico. É o Canal do Sertão, que levará água do rio, renda e desenvolvimento para 42 municípios das regiões mais sofridas do meu estado. Localizado ao longo do sertão de Alagoas, o canal começará por Delmiro Gouveia, passando por várias cidades até o povoado de Folha Miúda, em Arapiraca, no agreste do estado. Com essa obra, vamos garantir a mais de 1,2 milhão de pessoas do semi-árido água tratada para o consumo humano, irrigação em milhares de hectares às margens do canal, produção de alimentos para o consumo regional e para a exportação, viabilização da pecuária e aumento da oferta de alimentos, por meio da introdução da piscicultura.
O Canal do Sertão é, hoje, sem dúvida, a única alternativa para a promoção do desenvolvimento sustentável do semi-árido e do agreste alagoanos. O Projeto foi lançado pelo Governo de Alagoas em 1992 e está sendo implantado dentro de uma parceria com o Governo Federal, através do Ministério da Integração Nacional.
O Ministro Geddel Vieira Lima e o Presidente Luis Inácio Lula da Silva visitarão a obra no próximo dia 25 e, como nordestinos que são, tem demonstrado enorme sensibilidade para a importância do canal. Eu e o governador Teotônio, assim como a bancada federal, em Brasília, temos procurado priorizar os entendimentos com o governo federal para a liberação de recursos para este projeto. Dos mais de R$ 530 milhões de custo, conseguimos o empenho de duas parcelas de R$ 90 milhões, do ano passado para cá, o que significa a liberação de um terço do total da obra, somente nesta leva.
Este sonho não é de agora. Em 1972, o senador Luiz Cavalcante, da Arena, já falava no plenário do Senado de um estudo do professor Fredolino José Burcheid, sobre a viabilidade da construção de um canal irrigatório, no sertão de Alagoas, com as águas do São Francisco. É como a antiga profecia que falava do sertão que vai virar mar. Com o Canal do Sertão, vai mesmo.

*Renan Calheiros é senador pelo PMDB de Alagoas

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