Muito já se discutiu sobre a crise mundial, este verdadeiro terremoto que começou na área financeira e hoje atinge a economia globalizada. Saídas e alternativas para o enfrentamento dessas turbulências já foram apontadas por especialistas e analistas internacionais e é tema recorrente dos chefes de governo.
A grande lição que resta destes episódios dramáticos é que, definitivamente, é chegado o momento de priorizar a cooperação. E os maiores exemplos vêm de fora. Foi o que fizeram os Bancos Centrais dos Estados Unidos e da Europa. É o que está acontecendo entre os países de todos os continentes.
O Presidente Lula, que tem participado de reuniões como as do G-20 — o Grupo das nações em desenvolvimento com os países ricos – disse que “… a correlação da política mundial hoje precisa ter a participação não apenas dos países mais ricos do mundo, mas dos países emergentes, dos países em vias de desenvolvimento que têm uma grande população”.
Na semana passada, como em outras oportunidades, conversei com o Presidente sobre este e outros temas. Senti dele disposição para debelar os efeitos da crise e amenizar seus desdobramentos na economia nacional. O Presidente Lula tem perfeita consciência de que é preciso superar o atual modelo de coordenação e direção do poder no mundo e reformular os atuais organismos internacionais.
A posse de Barack Obama também expressa estes novos ventos mundiais, não apenas por seu caráter progressista, mas pela necessidade de uma visão mais multilateral.
O credo liberal e a panacéia dos mercados “eficientes” ou “auto-regulados” foram sumariamente abandonados. E o Estado assumiu, com maior ou menor grau de acerto, a responsabilidade pela defesa das instituições financeiras, pela provisão da liquidez, pela garantia integral dos depósitos e pela tentativa de evitar a todo custo o aprofundamento da contração do crédito.
A superação da atual crise deverá contemplar a implantação de um novo marco regulatório para o sistema financeiro. E este novo ambiente internacional favorece a busca de soluções cooperadas — insisto.
Num momento de enorme aceleração da crise, o Parlamento brasileiro pode funcionar ainda mais como um pilar fundamental, a ser usado para evitar – entre outros desdobramentos indesejáveis – um baque no crescimento econômico.
Na verdade, este momento vai servir como um grande teste para a democracia. Se falharmos em nossa responsabilidade de fornecer os instrumentos para o enfrentamento da crise, o preço a ser pago será terrível.
A estabilidade econômica e institucional é uma conquista de toda a sociedade e deve ser mantida com sua colaboração, em todos os seus setores. Qualquer coisa fora disso é ir contra tudo o que foi construído a duras penas diante do sacrifício de gerações.
Nosso País é uma alternativa na questão de segurança nos investimentos. Nossa credibilidade é nosso grande trunfo. Lideramos a atração de dinheiro estrangeiro entre as economias latinas nos últimos anos. Nosso mercado pujante é um ativo no crescimento.
De sua parte, o Banco Central e o Ministério da Fazenda estão fazendo o dever de casa. Além de diversas medidas preventivas para aliviar as instituições financeiras e as empresas, cortou os juros em 1%, na semana passada, embora pudesse ter avançado mais, adotando um viés de baixa para permitir novas quedas imediatas na taxa SELIC. A decisão é extremamente oportuna porque a restrição de crédito no sistema mundial é uma das principais características da crise.
Além da macroeconomia, não podemos nos esquecer da economia real. Como disse o empresário Benjamim Steinbruch — diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional — temos de nos antecipar aos efeitos da crise e optar pelo estímulo a setores como construção civil, energia e infra-estrutura, para que sejam porta-estandartes de uma nova fase econômica.