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As lições de Zuzu Angel

A pré-estréia do filme Zuzu Angel, no auditório Petrônio Portella, do Senado Federal, foi emocionante. O filme, sobre a luta da estilista mineira para recuperar o corpo do filho torturado e morto durante a ditadura militar, retrata um período triste e amargo da vida nacional. Um período que ainda permanece meio obscuro e que toda a sociedade tem o direito – e o dever – de conhecer de perto, até para não voltarmos a tropeçar nos mesmos erros do passado. Pois a pré-estréia de Zuzu Angel no Senado não poderia ser mais bem-vinda. Afinal, a história da estilista e do Congresso Nacional se fundem na luta incansável pela redemocratização do país e pela recuperação dos plenos direitos de nossos cidadãos.

O filme de Sérgio Rezende expõe, pela primeira vez, ao grande público todo o drama de Zuzu Angel e de seu filho Stuart Edgar Angel Jones, militante do MR-8 preso e morto depois de barbaramente torturado em maio de 1971. Após ler o relato de uma testemunha sobre as circunstâncias da morte de Stuart, Zuleika Angel Jones passou cinco anos em busca do corpo do filho e da verdade sobre sua morte. Apelou a atrizes famosas que eram suas clientes, como Joan Crawford, Liza Minelli e Kim Novak, ao secretário de Estado Henry Kissinger e ao senador Ted Kennedy, já que Stuart era filho de pai norte-americano e tinha dupla nacionalidade. Zuzu deixou com o amigo Chico Buarque de Holanda uma carta na qual afirmava que, se alguma coisa lhe acontecesse, seria um atentado. Uma semana depois, morreu em circunstâncias misteriosas ¿ teve o automóvel fechado por um veículo não identificado na madrugada de 14 de junho de 1976.

Essa é uma das muitas histórias trágicas da época que permanecem mal explicadas. Claro que a anistia ampla, geral e irrestrita passou uma borracha sobre o período. Mas as famílias têm todo o direito de saber o que aconteceu aos seus entes queridos e de conhecer o destino de seus corpos. Temos, todos, o direito de conhecer nossa história, em seus episódios mais gloriosos ou mais sombrios.

Como ministro da Justiça, criei a primeira comissão de anistia, que analisa até hoje os benefícios indenizatórios aos perseguidos pelo regime de exceção. Em 2002, relatei no Senado o projeto que regulamentou o pagamento dos benefícios. Há mais de 50 mil pedidos de indenização em análise. Precisamos acertar contas com o passado. Não é o caso de buscar responsáveis ¿ como disse, houve uma anistia total, uma pacificação do país. Trata-se apenas de esclarecer a verdade e, quando for o caso, de indenizar as famílias por suas perdas.

Esse sentimento de resgate de nossa história ficou bem claro durante a pré-estréia de Zuzu Angel, que teve, entre outros convidados, o vice-presidente José Alencar, a primeira-dama, Marisa Letícia, a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Ellen Gracie, e as atrizes Luana Piovani e Patrícia Pillar, que interpreta de forma magnífica a estilista Zuzu Angel.

Foi em homenagem à amiga Zuzu que Chico Buarque compôs, em parceria com Miltinho, do MPB-4, a belíssima “Angélica”: “…Quem é essa mulher, que só queria embalar seu filho, que mora na escuridão do mar…”. É o que agora o Brasil inteiro vai saber.

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