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A CRISE “MADE IN USA”

Desde o “crack” da Bolsa norte-americana, em 1929, o mundo não via crise tão intensa. O medo tomou conta dos mercados financeiros de todo o Planeta. O turbilhão econômico começou no sistema hipotecário imobiliário dos Estados Unidos e atingiu em cheio os mercados de crédito, que ficaram quase que totalmente caóticos.

A iminência da quebradeira de bancos e companhias de seguros pelo mundo acendeu a luz vermelha em todos os países. Houve fortes repercussões na União Européia, na Ásia, na África e nas Américas. E os reflexos da crise já estão chegando ao Brasil.

Com que intensidade e de que maneira, depende muito dos mecanismos que teremos à mão para enfrentá-la. E da disposição da sociedade, do setor produtivo, dos trabalhadores, de nossas instituições de responder à altura, preservando as bases da economia.

Diante disso, o Presidente Lula fez um dos discursos de maior repercussão internacional dos últimos anos, ao falar na ONU, em Nova Iorque, no dia 23 de setembro. Ele disse que a ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. O Presidente lamentou, citando o emérito Celso Furtado, “… que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas”.

Agora, perante a catástrofe iminente, aqueles mesmos que reclamavam, há poucos meses, menos Estado, recorrem aos Governos, com total desfaçatez. Como de costume, são os menos favorecidos que mais sofrem. Porque os gestores da crise – os responsáveis pelo problema – dificilmente serão punidos. E muitos podem, ainda, tirar proveito das grandes indenizações e reformas que estão sendo anunciadas.

Por isso, mais uma vez, o Presidente Lula demonstrou enorme bom senso, ao propor que Bancos Centrais de todo o mundo se reúnam na Basiléia — a sede do Banco de Compensações Internacionais, na Suíça — para adotar medidas globais. Enquanto isso, aqui no Brasil, nosso Estado – acionado, acertadamente, para ajudar a superar as mazelas sociais com políticas de reparação e compensação – pode não suportar tamanho esforço, em meio à crise. É preciso fortalecê-lo, blindá-lo…

De qualquer forma, o sistema puramente liberal entrou em ruptura. É necessário repensar o capitalismo, passando da fase especulativo-financeira dos paraísos fiscais, de uma “economia de cassino”, para um capitalismo ético, primordialmente social e respeitador do ambiente.
É possível tal mudança? É. Mais: é inevitável…

Como escreveu o economista Joseph Stiglitz — prêmio Nobel de 2001 e ex-chefe do Banco Mundial — é preciso que os dirigentes políticos do Ocidente tenham a coragem de revisar seus dogmas ideológicos.

Já o Presidente e senador José Sarney — como de costume, um estadista atento às turbulências internacionais — foi à Tribuna, há poucos dias, chamar a atenção para a crise. E questionou, oportunamente: “Como é que um país, que é líder no mundo inteiro, cometeu a imprudência de não fiscalizar, não regular as entidades financeiras, de tal maneira que o sistema bancário norte-americano traz grandes apreensões para a economia daquele país?”.

Infelizmente, já começamos a sentir os primeiros reflexos da crise aqui no Brasil. Houve aumento nos preços das mercadorias que recebemos de fora e freio nas vendas de produtos brasileiros para o exterior. O dólar se valorizou frente ao real, o que deve trazer reflexos também para o setor rural.

Por incrível que pareça, a queda nos preços dos alimentos e nos derivados do petróleo são algumas das conseqüências positivas da crise para o Brasil. Além disso, o especulador que ganha muito sem trabalhar está no sufoco. Um estímulo à produção interna também deve acontecer por conta do encarecimento de produtos estrangeiros. O grande problema é que vários setores ainda não estão preparados para atender esse mercado.

Nosso País é uma alternativa na questão de segurança nos investimentos. Nossa credibilidade é nosso grande trunfo. Hoje, temos reservas de mais de US$ 200 bilhões. Até a respeitada revista britânica The Economist afirma que o Brasil está sólido e preparado para enfrentar uma turbulência internacional.

De acordo com a própria ONU, o investimento externo no Brasil cresceu 83,7% em 2007. Nosso País liderou a atração de dinheiro estrangeiro entre as economias latinas e recebeu US$ 34,6 bilhões no ano passado. Em outra frente, o Presidente do BNDES, Luciano Coutinho, prevê que os investimentos deverão totalizar R$ 2,36 trilhões entre 2008 e 2011. Para ele, nosso mercado pujante é um ativo no crescimento.

Como disse o competente empresário Benjamin Steinbruch — diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional — temos de nos antecipar à crise e optar pelo estímulo a setores como construção civil, energia e infra-estrutura, para que sejam porta-estandartes da nova fase.

Os líderes internacionais têm de assumir papéis mais pró-ativos e afirmativos, sem hesitações. Esta é uma luta que não podemos perder, porque a crise gera mais fome, cria instabilidade e devemos reagir todos juntos e agora.

É urgente um plano de ação global, que envolva todas as nações — pobres e ricas, desenvolvidas ou não –, porque há bilhões de pessoas à espera de uma resposta. Por isso, eu conclamo – mais: eu desafio — os dirigentes mundiais a assumirem um compromisso aberto de luta contra a crise, em parceria com as organizações e a sociedade civil de todos os países.

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